Em agosto de 2026, duas marcas muito conhecidas dos brasileiros entraram para a lista de empresas em recuperação judicial. Primeiro, o Grupo Casas Bahia pediu recuperação para reestruturar cerca de R$ 17,3 bilhões em dívidas, depois de fechar o segundo trimestre do ano com prejuízo líquido contábil de R$ 10,1 bilhões. Poucos dias depois, foi a vez do Grupo Gennius, dono do Habib’s, do Ragazzo e do Tendal Grill, protocolar seu próprio pedido, com uma dívida declarada de R$ 265,2 milhões.
Esses dois casos, por si só, já chamariam atenção pelo tamanho das marcas envolvidas. Mas o que torna esse momento ainda mais relevante é o contexto em que eles acontecem: afinal, o Brasil está batendo recorde histórico de empresas em recuperação judicial. Segundo dados do Monitor RGF-BizDoc, o país saiu de 4.876 empresas em RJ no quarto trimestre de 2024 para 6.341 no segundo trimestre de 2026, um salto de quase 30% em um ano e meio. Só de 2024 para 2025, por exemplo, a alta já havia sido de 22,4%.
Ou seja, não se trata de um problema isolado de um setor ou de empresas mal administradas. O comércio lidera em número absoluto de casos, mas é o agronegócio que sofre proporcionalmente mais, com 26 empresas em recuperação judicial para cada mil ativas, mais do que o triplo da taxa da indústria de transformação, o segundo setor mais afetado.
A seguir, explicamos o que está por trás dessa onda de pedidos e, principalmente, o que qualquer empresário, esteja sua empresa endividada ou não, pode tirar de aprendizado desse cenário.
O que está impulsionando a alta de pedidos de recuperação judicial
Ao justificar o próprio pedido, o Grupo Casas Bahia foi direto: apontou juros elevados, restrição de crédito, aumento do custo financeiro e pressão sobre o consumo e o capital de giro como fatores centrais da deterioração de suas condições econômico-financeiras. Além disso, a empresa mencionou que alternativas de liquidez que vinha estruturando simplesmente não se concretizaram.
Esse diagnóstico não é exclusivo da Casas Bahia. Na verdade, ele é o retrato de um ambiente macroeconômico que pressiona empresas de portes e setores diferentes ao mesmo tempo:
- Juros altos por mais tempo do que o esperado. A Selic entrou em ciclo de corte, mas as projeções indicam que os juros devem permanecer em patamar restritivo por um bom tempo, na casa de 12,5% a 13% ao fim do ciclo. Consequentemente, qualquer dívida, adiamento de investimento ou renegociação fica mais caro.
- Crédito mais caro e mais seletivo. Bancos e investidores ficaram mais criteriosos, o que dificulta rolar dívidas ou buscar capital de giro justamente quando as empresas mais precisam de fôlego.
- Inadimplência em alta. O país chegou a 2026 com 8,7 milhões de CNPJs negativados, um indicador que, historicamente, antecede novos pedidos de recuperação judicial.
- Pressão sobre o caixa. Entre consumo mais fraco, custo financeiro maior e prazos mais apertados com fornecedores, o capital de giro acaba virando o ponto de estrangulamento de muitas operações, inclusive de empresas que, no papel, pareciam saudáveis.
O alerta que passa longe do radar de muita gente
Um dado chama atenção especial: no segundo trimestre de 2025, a proporção de empresas que acabaram falindo mesmo depois de entrar em recuperação judicial chegou a 30%, contra algo entre 10% e 20% em períodos anteriores. Em outras palavras, a recuperação judicial está sendo mais usada e, ao mesmo tempo, funcionando menos como caminho de reestruturação bem-sucedida.
Por isso, vale reforçar um ponto central para qualquer empresário: recuperação judicial não é um “reset” garantido. Pelo contrário, é um processo custoso, longo e incerto, e o ideal é nunca depender dele como plano de contingência.
O que o caso Casas Bahia ensina sobre indicadores que escondem risco
Um dos aprendizados mais valiosos desse momento não vem das empresas em crise, mas sim de como analistas de mercado estão reavaliando a forma de enxergar risco financeiro. No trimestre anterior ao pedido de recuperação judicial, por exemplo, a Casas Bahia reportava uma alavancagem de apenas 0,5 vez na relação entre dívida líquida e Ebitda, um número que, olhado isoladamente, passaria a impressão de uma empresa em situação confortável.
O problema é que esse indicador não capturava o passivo real da companhia, que somava R$ 17,3 bilhões. Isso porque a diferença estava espalhada em compromissos que não entram na conta tradicional de dívida financeira, como risco sacado, FIDCs, fornecedores e contingências.
Portanto, para o empresário, a lição é direta: olhar só a dívida financeira líquida pode dar uma falsa sensação de segurança. Assim, vale a pena acompanhar, de forma combinada:
- a alavancagem (dívida líquida/Ebitda), mas sem tratá-la como número isolado;
- o passivo total e a estrutura de capital como um todo, incluindo obrigações que não aparecem no indicador de dívida financeira tradicional;
- a cobertura de juros, ou seja, quanto do resultado operacional está sendo consumido pelas despesas financeiras;
- sinais de patrimônio líquido em deterioração;
- se os prejuízos são pontuais (ligados a um evento específico) ou recorrentes, trimestre após trimestre;
- e a geração de caixa, já que lucro contábil não paga dívida, caixa paga.
Afinal, nenhum desses indicadores funciona sozinho. É justamente o conjunto que revela problemas antes que eles se tornem uma crise pública.
O que sua empresa pode aprender com esse cenário
Mais do que acompanhar os desdobramentos de casos como Casas Bahia e Habib’s, o momento é uma boa oportunidade para o empresário rever a própria gestão de riscos. A seguir, listamos alguns pontos práticos:
1. Não confie em um único indicador financeiro. Assim como investidores estão aprendendo a olhar além da dívida líquida, o empresário também precisa ter uma visão completa da estrutura de capital do próprio negócio, incluindo obrigações com fornecedores, antecipações de recebíveis e contingências que nem sempre aparecem em destaque nos relatórios gerenciais.
2. Monitore o capital de giro de perto, especialmente em ciclos de juros altos. Em um cenário de crédito restrito, a folga de caixa deixa de ser um detalhe operacional e passa a ser uma questão estratégica. Por isso, antecipar necessidades de capital de giro costuma ser mais barato e mais seguro do que negociar em situação de urgência.
3. Diferencie prejuízo pontual de prejuízo estrutural. Um resultado ruim isolado pode ser absorvido sem grandes traumas. Já o prejuízo recorrente, trimestre após trimestre, é sinal de que algo no modelo de negócio ou na estrutura de custos precisa de correção. Portanto, quanto antes esse diagnóstico for feito, mais opções a empresa tem.
4. Planeje a renegociação de dívidas antes que ela se torne inevitável. Afinal, reestruturar passivos, alongar prazos e rever condições com credores enquanto a empresa ainda tem poder de negociação é bem diferente de fazer isso sob pressão de um processo judicial.
5. Trate a assessoria jurídica e financeira como prevenção, não como remédio de última hora. Isso porque muitos dos problemas que levam empresas à recuperação judicial são identificáveis com antecedência, seja no acompanhamento de contratos, na estrutura societária, na revisão de garantias dadas a credores, seja no planejamento tributário e patrimonial do negócio.
Prevenção é o melhor caminho
Em resumo, a alta nos pedidos de recuperação judicial em 2026 não é um fenômeno restrito a grandes varejistas ou a setores específicos. Na verdade, ela é reflexo de um ambiente de juros elevados, crédito restrito e pressão sobre o caixa que afeta empresas de todos os portes. Casos como Casas Bahia e Habib’s/Ragazzo/Tendal Grill servem, portanto, como lembrete de que sinais de deterioração muitas vezes estão visíveis bem antes de se tornarem manchete, e de que esperar o problema aparecer é a pior estratégia.
Se sua empresa está enfrentando pressão sobre o caixa, dificuldade para renegociar dívidas ou simplesmente quer estruturar melhor sua gestão de riscos antes que eles se tornem um problema maior, a assessoria jurídica empresarial da Rocchi Naves pode ajudar. Nossa equipe identifica pontos de atenção e constrói um plano preventivo sob medida para o seu negócio. Agende uma consulta e converse com nossos especialistas.



